Senhor de engenho no Brasil, Relação com os Ecravos


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O senhor do engenho vivia do essencial para a vida e a atividade econômica, porém, produzia-se dentro do engenho – e nesse pequeno mundo reinava, com autoridade ilimitada, o senhor de engenho, expressão que tinha quase o significado de um título de nobreza.

Ser senhor de engenho era ter poder, respeito e obediência de todos os que giravam a sua volta. O senhor de engenho e sua família viviam na casa-grande; raramente abandonavam os limites da propriedade. Havia mesmo um certo desprezo pelas cidades e suas “recreações amiudadas, galas, serpentinas e jogos”, como disse um cronista da época.



Ter casa na cidade era fonte de despesas, de desperdícios, sinal de falência iminente. Esse tipo de comportamento veio reforçar a pobreza cultural das cidades brasileiras durante o período colonial.

Relegadas a um segundo plano, nelas não havia, por exemplo, universidades, como as que se multiplicavam na América espanhola. Do ponto de vista de vida social, tudo girava em torno da casa-grande. A família patriarcal brasileira tem origem nessa forma de vida.

Escravos

O senhor de engenho, patriarca absoluto, devia ser obedecido por todos – escravos, empregados ou membros da família.



A esposa, totalmente submissa, vivia para procriar, fazer doces e trabalhos de agulha, situação que se repetia com as filhas. Aliás, o casamento precoce era usual entre as moças dos engenhos: com 15 anos muitas já estavam casadas, com homens, às vezes, de 50 anos e até mais. Os filhos também deviam demonstrar respeito e obediência.

Até para fazer a primeira barba precisavam da autorização paterna. Os rapafes, no entanto, tinham maior possibilidade de acesso ao estudo. O filho mais velho era orientado para suceder ao pai nos negócios. Dos demais, um, invariavelmente, se tornava padre, enquanto outro (se possível) ia estudar Direito em Coimbra.

O poder do açúcar

Mesmo passando a maior parte do tempo isolado em sua fazenda, o senhor de engenho estendia sua autoridade às populações das áreas circunvizinhas. Era o chefe, o conselheiro, o homem a quem todos deviam algum tipo de favor, a quem respeitavam e temiam.

Abaixo dele vinha o plantador de cana, fazendeiro que, embora possuísse terras e escravos, não dispunha de capital suficiente para importar o caríssimo equipamento de fabricação de açúcar. Assim, transformava-se em fornecedor de matéria-prima, entregando a cana para ser moída nos engenhos vizinhos.

Plantadores e senhores de engenho formavam a chamada “aristocracia do açúcar”, a camada dominante da sociedade brasileira nos dois primeiros séculos do período colonial.

Menos poderoso, o plantador estava submetido ao senhor de engenho, a quem entregava a metade de seu açúcar, como pagamento pelo uso das instalações industriais. Evidentemente, isso gerava conflitos, pressões pelo controle da safra e disputas de terras.

No entanto, mais forte do que os conflitos era a dependência econômica, que transformava o plantador em aliado político do senhor de engenho. Juntos, controlavam a Câmara Municipal de Salvador, de Olinda e de outras cidades.

Até 1703, só os proprietários de terras podiam candidatar-se aos cargos da Câmara; a guerra dos Mascates, em 1710, teve como causa a rebeldia dos comerciantes do Recife contra a aristocracia do açúcar, que dominava Olinda.



A crise nos engenhos

Quando os mascates pegaram em armas para defender sua autonomia, a força da aristocracia rural não era mais a mesma. Durante a maior parte do século XVII, os preços do açúcar haviam caído no mercado internacional e os produtores, endividados, viam escapar-lhes o poder político. Era o início da longa decadência da monocultura açucareira.

Desde 1532, a produção brasileira de açúcar havia crescido sem parar, alcançando seu apogeu no início do século XVII. Já naquele momento, porém, os principais elementos de uma grande crise estavam colocados.

Em 1580, quando Portugal passou para o domínio espanhol, os produtores brasileiros se viram atingidos pelos efeitos da rebelião dos Países Baixos contra Filipe II. Como os holandeses praticamente controlavam todo o comércio internacional de açúcar, a distribuição do produto ficou prejudicada.

Em 1609, uma trégua na Europa veio salvar a situação. O açúcar brasileiro voltou a ser desembarcado nos portos holandeses e a produção cresceu em Pernambuco.

Mas, em 1621, recomeçaram as hostilidades entre a Espanha e os Países Baixos. Novamente excluídos do rendoso comércio açucareiro, os holandeses concluíram que só lhes restava ocupar militarmente a região produtora no Brasil.

Entre 1630 e 1654, o Nordeste brasileiro esteve sob domínio holandês. De certa forma, isso representou a reativação do comércio com a Europa, dando novo impulso à produção açucareira. Aquela altura, porém, novos concorrentes já haviam entrado no mercado.

Nas Antilhas, as colônias da Holanda e de outros países europeus haviam se transformado em grandes canaviais e, usando métodos mais modernos que os dos portugueses, conseguiam reduzir os custos de produção, vendendo mais barato. Depois da expulsão dos holandeses, Portugal, a essa altura outra vez independente, tentou reativar a economia açucareira, mas nada conseguiu.

Como no Brasil não havia qualquer outro produto capaz de ocupar o lugar do açúcar no mercado internacional, a Colônia entrou numa fase de estagnação. A prosperidade só voltou no início do século XVIII, quando foi descoberto ouro em Minas Gerais. Era o início de um novo período da economia brasileira.

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Imagem- ultracurioso.com.br