Revolta da Chibata – Motivos, Como foi e Consequências

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Na verdade, o acordo tácito pelo qual São Paulo e Minas deviam revezar-se na presidência era visto com desconfiança nos demais Estados da Federação.

O Rio Grande do Sul de Borges de Medeiros, o herdeiro do positivista Júlio de Castilhos, aparecia como a principal força de oposição à hegemonia dos cafeicultores paulistas e mineiros.

A Revolta da Chibata

O governo Hermes da Fonseca iniciou-se sob o troar dos canhões. Na noite de 22 de novembro de 1910, os marinheiros da esquadra de guerra ancorada na Guanabara rebelaram-se e passaram a bombardear o Rio de Janeiro.

O Brasil era então a terceira potência naval do mundo. Possuía 24 belonaves, entre as quais se destacava o encouraçado Minas Gerais, um dos mais poderosos navios de guerra da época.

Mas os métodos de recrutamento e disciplina continuavam os mesmos do início do século XIX: marujos incorporados à força, tratamento desumano e castigos corporais “para manter a ordem”.

Por esse motivo, desde 1891 sucediam-se os motins nos navios de guerra brasileiros. Em 1910 a insatisfação chegara ao auge e os marinheiros voltaram a conspirar. Em contrapartida, os castigos tornaram-se ainda mais duros; a chibata era usada para punir a menor falta.

Na manhã de 22 de novembro a tripulação do Minas Gerais assistiu calada ao açoitamento do marinheiro Marcelino Rodrigues Meneses. Na noite do mesmo dia a Revolta da Chibata explodiu simultaneamente no Minas Gerais, no São Paulo, no Deodoro e no Bahia.

Marujos e oficiais enfrentaram-se em sangrento corpo-a-corpo, ao fim do qual jaziam dezenas de mortos. Mas a primeira batalha estava ganha, os marinheiros dominavam os mais poderosos navios da esquadra. Seu chefe, o mulato João Cândido Felisberto, passaria à história como o “Almirante Negro”.

Hermes da Fonseca, estupefato, recebeu a lista de reivindicações dos rebeldes: ameaçando bombardear a capital, exigiam a abolição da chibata, o afastamento dos oficiais incompetentes e o aumento de soldos.

Não obtendo resposta, os marinheiros concretizaram a ameaça. Três dias depois, uma lei especial do Congresso atendia a seus reclamos.

As “salvações nacionais”

A vitória foi de curta duração. A 9 de dezembro, uma Revolta da Chibata no Batalhão Naval da ilha das Cobras serviu de pretexto para um verdadeiro massacre entre os rebeldes de novembro.

Vários marinheiros foram fuzilados no cargueiro Satélite; outros morreram nas masmorras da ilha das Cobras, asfixiados com cal, conforme depoimento de João Cândido. O “Almirante Negro” sobreviveu, mas foi definitivamente afastado da Marinha.

A Revolta da Chibata não chegou a abalar o poderio dos setores militares, juntamente com os ‘coronéis” do sertão, marcharam sobre Fortaleza e derrubaram Franco Rabelo.

O oligarca Nogueira Accioly, aliado ao senador Pinheiro Machado, voltava assim ao executivo cearense. com as bênçãos da presidência da República. Franco Rabelo, entretanto, recebeu a inteira solidariedade do Clube Militar; o episódio desencadeou urna profunda crise política.

A volta do “café com leite”

Incapaz de levar adiante sua política das ”salvações”, o Exército afastou-se do poder, abrindo espaço para a volta dos cafeicultores paulistas e mineiros. Pinheiro Machado, que havia conduzido Hermes da Fonseca à presidência, aparecia como candidato natural à sucessão de 1914.

Mas, àquela altura, sem apoio militar, o político gaúcho estava completamente desgastado. O PRP passou a manobrar o jogo sucessório. Propondo a candidatura do vice-presidente, Venceslau Brás Pereira Gomes, nascido em Minas Gerais, os paulistas conseguiram o apoio do Partido Republicano Mineiro, reatando o pacto do “café com leite”.

Eleito presidente, Venceslau Brás assumiu a 15 de novembro de 1914, enquanto a figura de Pinheiro Machado entrava cru seu declínio final. No ano seguinte, o senador gaúcho seria assassinado por um padeiro.

Prenúncios da crise

Em seus quatro anos de mandato. Venceslau Brás enfrentou tempos de crise econômica, política e social. Em 1914 explodiu a Primeira Guerra Mundial, que afetou profundamente nossas relações comerciais com a Europa. No ano seguinte, uma Revolta de sargentos abalou o Rio de Janeiro.

Em 1917, greves operárias paralisavam as principais cidades do país. Em 1918, o paulista Rodrigues Alves foi eleito, pela segunda vez, para a presidência da República. Mas, muito doente, não chegou a tomar posse, falecendo em janeiro do ano seguinte.

Por isso, a 15 de novembro de 1918, a presidência foi assumida pelo vice-presidente Delfim Moreira da Costa Ribeiro, que governaria até 28 de julho de 1919, pois a Constituição determinava que se realizassem novas eleições. Assim, no início de 1919 deflagrou-se novamente o processo eleitoral.

Sem contar com um político de peso em seus Estados, o PRP e o PRM lançaram o paraibano Epitácio da Silva Pessoa, sem que isso significasse qualquer ruptura na política do ”café com leite”. Epitácio Pessoa seria um hei porta-voz das oligarquias paulistas e mineiras Indicado pelas oposições.

Rui Barbosa tentou repetir a jornada de 1910,- sem encontrar o mesmo eco da Campanha Civilista. O candidato oficial foi eleito sem dificuldades. O governo de Epitácio Pessoa foi marcado pela repressão ao movimento sindical e ao anarquismo. Foi também em sua gestão que o dólar passou a ser nosso padrão monetário, em substituição à libra.

Quatro anos em estado de sítio

O sucessor de Epitácio Pessoa foi o mineiro Artur da Silva Bernardes, que assumiu a 15 de novembro de 1922. Foram quatro anos de estado de sítio em que não se conseguiu superar a crise de autoridade das oligarquias nem acabar com as sucessivas rebeliões militares.

Em julho de 1922, o forte de Copacabana já havia se amotinado, tentando impedir a posse de Bernardes. Era o início do movimento tenentista. Mas a agitação não ficou restrita aos tenentes. Em 1923, a oposição ao governador gaúcho. Borges de Medeiros, lançou-se à luta armada, tentando derrubá-lo.

Em 1926 surgia. em São Paulo. o Partido Democrático, fundado por uma dissidência do PRP. Apesar dos obstáculos, Bernardes conseguiu levar seu governo até o fim e, no dia IS de novembro de 1926, entregou o poder a Washington Luís Pereira de Sousa.

Nascido cru Macaé, no Estado do Rio, o novo presidente fizera toda a sua carreira política em São Paulo, chegando a governador do Estado e dirigente máximo do PRP.

Sua ascensão ao governo federal representava, portanto, a continuidade do pacto dominante. A política do “café com leite”, porém, estava com os dias contados. Antes que Washington Luís terminasse seu mandato, o Brasil entraria em uma nova era.

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Imagem- geaciprianobarata.blogspot.com.br

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