Religião e a catequese no Brasil Colonial


religiao-e-a-catequese

Eis como Pêro de Magalhães Gandavo, em seu livro Tratado da Terra do Brasil, descreve o trabalho dos padres da Companhia de Jesus, no século XVI.

A organização de escolas a título de catequese, a ação missionária pelo interior do Brasil e a intervenção abertamente diplomática e conciliadora, nos momentos de ruptura entre portugueses e indígenas, evidenciam a importância inestimável da contribuição prestada pela Ordem à obra colonizadora.



Doentes para o Brasil

Em 1549, quando o padre Manuel da Nóbrega e cinco outros jesuítas chegaram ao Brasil, havia pouco mais de 15 000 portugueses para policiar o extenso litoral e desenvolver os centros coloniais de Pernambuco, Bahia, Espírito Santo e São Vicente.

Desses portugueses, uma boa parte correspondia a cristãos-novos, temerosos das autoridades religiosas, e a criminosos que escolheram o degredo na América para escapar ia cadeia e da forca. E os indígenas, do ponto de vista cristão, eram totalmente Imorais.

Viviam nus, praticavam a poliginia (união de um homem com várias mulheres) e a antropofagia; as guerras tribais muitas vezes eram desencadeadas só para obter prisioneiros ou para vingar amigos capturados e devorados.



Nessas condições, era uma tarefa sobre humana a que se propunham os jesuítas: a educação dos filhos de colonos e indígenas, a catequese dos nativos e a vigilância de padrões de comportamento das duas comunidades.

O padre Manuel da Nóbrega escreveu repetidas vezes a seus superiores em Portugal, solicitando envio de novos padres à Colônia.

Um modelo para a América

De 1549 a 1604, chegaram às Américas 28 expedições missionárias da Companhia de Jesus, fixando-se em terras brasileiras, paraguaias, uruguaias e argentinas.

Todas seguiram as linhas básicas do modelo criado por Manuel da Nóbrega na Bahia, na metade do século XVI: os aldeamentos conhecidos por missões ou reduções (termo empregado na América espanhola) e que só desapareceriam em meados do século XVIII.

As missões atendiam ao objetivo básico de separar os índios de suas comunidades originais, neutralizando a influência “pagã” dos pajés e combatendo energicamente uma série de elementos das culturas tribais. Além disso, nelas eram ministrados ensinamentos não só religiosos mas também práticos: carpintaria, tecelagem, pintura e escultura.

Os hábitos indígenas de nomadismo e de lavoura itinerante eram assim transformados em hábitos agrícolas sedentários, com métodos racionais de utilização do solo. O trabalho, não assalariado, era feito em benefício da comunidade, e os trabalhadores ocupavam-se alternadamente da roça e das oficinas.

Cada missão tinha uma praça central onde estavam a igreja, o convento e o cemitério. As construções principais eram de pedra, as demais feitas de adobe (tijolo de barro e palha, secado ao sol). Um fosso e uma paliçada protegiam a aldeia de eventuais ataques.

O perigo de um cerco fazia-os manter água e alimentos sempre armazenados. Paralelamente os jesuítas detiveram, durante os dois séculos iniciais da colonização, a quase exclusividade da educação no Brasil.



A Metrópole provia um subsídio às escolas, tornava obrigatória a gratuidade do ensino e recomendava a abertura de suas portas a todos. Assim, nas escolas jesuíticas, tanto os filhos dos colonos quanto os índios e suas crianças recebiam ensinamento e ouviam as pregações dos padres.

Diplomatas entre os tamoios

A flexibilidade jesuítica se revelaria essencial quando se tornaram críticos os combates entre os colonos portugueses e as tribos indígenas aliadas aos franceses, instalados na Guanabara desde 1555. Em 1562, os tamoios, tupiniquins e outros grupos hostis aos portugueses formaram uma aliança – a Confederação dos Tamoios -, que reunia tribos desde Cabo Frio, na costa fluminense, até Bertioga, no litoral santista.

Nóbrega e Anchieta entregaram-se como reféns aos índios sublevados. Para minar o apoio aos franceses, valeram-se de todos os recursos: missas, cerimônias, discursos dramáticos em tupi, hinos. As conversações prosseguiram por todo o segundo semestre de 1663, terminando por um armistício acertado em São Vicente, entre os jesuítas e o cacique tamoio Aimberê

O sucessor de Nóbrega

A partir de 1567, expulsos os franceses, Anchieta instalou-se na cidade do Rio de Janeiro, fundada dois anos antes por Estácio de Sá. Tinha 31 anos e era famoso por toda a Colônia, considerado o sucessor natural de Manuel da Nóbrega (com quem fundou um colégio jesuítico no Rio de Janeiro).

Em 1570 morreu o padre Nóbrega, e Anchieta tomou-se o reitor do colégio, encontrando tempo ainda para dedicar-se à catequese em São Lourenço, a atual Niterói. De 1577 a 1587 exerceu o cargo de provincial do Brasil, o mais alto da Companhia de Jesus na Colônia.

Durante esse tempo, viajou por todo o país, visitando as casas, jesuíticas e coordenando os trabalhos religiosos. Finalmente, como superior do’ colégio da vila de Vitória do Espírito Santo e catequista nas aldeias de Reritiba, morreu da doença que contraíra na adolescência. Seu cortejo foi acompanhado por mais de 3 000 índios. Era 1597 e ele tinha 63 anos.

Imagem- ebc.com.br