Queda do Império no Brasil – Como foi e Situação da Época

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Em 1866, quando o liberal Zacarias de Góis e Vasconcelos presidia um gabinete de “união nacional”, inúmeros integrantes de seu próprio partido começaram a questionar a participação conservadora no Ministério. Gradativamente, os chamados ”liberais radicais” formalizaram seus desacordos com o velho programa liberal.

Em 1868, o gabinete Zacarias foi derrubado pela intervenção do imperador, apesar de majoritário na Câmara: a dissidência chegou a um ponto de ruptura, marcando o agravamento da crise política do Segundo Reinado.

A autonomia da ala radical do liberalismo exprimia a descrença dos políticos mais jovens, ligados às camadas médias de uma sociedade cada vez mais urbanizada, quanto à realização de reformas dentro das estruturas do regime.

O novo grupamento passou a lutar pela extinção do Poder Moderador, da Guarda Nacional e do Conselho de Estado, pela extensão do direito de voto a todos os brasileiros e, sobretudo, pela abolição.

Apesar das reticências de Prudente de Morais, Campos Sales e outros políticos ligados à cafeicultura, liberais-radicais como Luís Gama e Américo Brasiliense revelaram-se bem mais engajados na campanha abolicionista que alguns republicanos ”puros”, interessados em obter o apoio dos setores rurais.

O “Manifesto Republicano”

A aproximação entre republicanos e radicais-liberais do Rio de Janeiro e São Paulo resultou no lançamento, a 3 de dezembro de 1870. do “Manifesto Republicano”, publicado no primeiro número do jornal carioca A República, que se autodefinia como “a voz de um partido que se alça para falar ao pais”.

Essa ”voz partidária” conduziu a crítica ao regime em termos extremamente moderados, reivindicando o emprego das “armas da discussão” para conduzir uma espécie de “revolução moral” que instaurasse o princípio da soberania popular. Talvez por esse comedimento, foi pequena a repercussão do manifesto, praticamente limitada à capital brasileira.

Gradativamente, porém, os círculos mais politizados ganharam consciência do alcance da ruptura que ocorrera a 3 de dezembro. O manifesto fora elaborado por um grupo de políticos relativamente jovens, sem grandes ligações com o regime.

Dentre seus signatários predominavam os advogados e jornalistas, representantes das camadas médias urbanas. A redação final – atribuída a Quintino Bocaiúva e outros jornalistas experientes podia utilizar uma linguagem moderada; mas, a partir de 1870, as camadas médias passavam a dispor de veículos alheios aos tradicionais partidos do Império para a expressão de seus interesses econômicos, políticos e sociais.

Confirmando a ruptura, logo após a formação do Clube Republicano no Rio de Janeiro, os clubes radicais de todas as províncias declararam-se republicanos.

A Convenção de Itu

Nos anos seguintes à publicação do ”Manifesto Republicano”, o movimento deitou raízes nas províncias do Sudeste e no Rio Grande do Sul. Em São Paulo seu alcance ia muito além dos setores médios urbanos: a bandeira republicana passou a exprimir os interesses dos cafeicultores e outros grandes fazendeiros, para quem a transformação do regime era sinônimo de autonomia federativa e incentivo à imigração européia.

O preço da adesão destes setores agrários à causa republicana foi a omissão de boa parte dos políticos paulistas quanto à urgência da abolição do trabalho escravo. Para não alienar o apoio de outros setores rurais, os fazendeiros republicanos enfatizavam a luta pela imigração, maneira de combater “indiretamente” a escravidão.

Ao mesmo tempo, Luís Gama e outros republicanos ‘plebeus” promoviam comícios e mobilizações abolicionistas – e não vacilavam em organizar a fuga de escravos.

Urna tentativa de resolver esta divergência de posições foi a realização, em 1873, de uma convenção republicana no centro cafeeiro de Itu. Todavia, mais uma vez prevaleceram as posições conciliadoras.

Para não alienar os setores rurais que ainda empregavam mão-de-obra escrava, a convenção declarou que cada província integrante da futura república federativa deveria realizar a reforma de acordo com seus próprios interesses – indenizando, em qualquer hipótese, os proprietários de escravos.

O “republicanismo agrário” de São Paulo confirmava suas limitações. Mas a reunião de 1873 formalizou o distanciamento entre os setores mais dinâmicos da agricultura brasileira e o regime imperial, ameaçado em suas próprias bases.

As “questões” do Segundo Reinado

Alguns historiadores atribuem a debilidade do regime imperial em sua última década ao eleito conjunto de três crises: as chamadas questões religiosa, militar e social, isto é, a luta pela abolição.

A primeira foi desencadeada em 1873, a partir da aplicação, pelos bispos de Olinda e Belém de bulas antimaçônicas da Santa Sé antes que estas tivessem sido aprovadas pelo imperador, e resultou na condenação, cm 1874, dos dois religiosos a quatro anos de trabalhos forçados.

A segunda manifestou-se em 1884, quando o oficial Sena Madureira homenageou o jangadeiro cearense Francisco do Nascimento – que, após a abolição no Ceará, se recusara a transportar escravos para navios negreiros que os levariam a outras províncias – e resultou numa série de punições de oficiais, por ignorarem a proibição de se pronunciarem pela imprensa.

Um dos atingidos foi o marechal Deodoro da Fonseca, demitido da presidência do Rio Grande do Sul. Estas crises acentuaram efetivamente a debilidade do regime – mas toda a evolução da vida brasileira, da expansão dos cafezais à urbanização, atuava no mesmo sentido.

A centralização imperial estava em descompasso com as exigências de autonomia dos cafeicultores, com a necessidade de expandir o mercado interno para apoiar a indústria nascente; a abolição e a República foram resultados naturais da diversificação da sociedade brasileira, cm todos os seus aspectos.

As transformações na corporação militar desempenharam um papel fundamental para esse resultado. Em 1870. o Exército vitorioso no Paraguai mobilizava 70 000 homens: no ano seguinte, seus efetivos foram reduzidos para 19000.

Era claro que o Governo imperial pretendia conservá-lo numa posição subordinada. A jovem oficialidade não aceitou as novas restrições. Sua adesão às idéias positivistas difundidas a partir de 1873 por Benjamim Constam representou, inclusive, a busca de um modelo alternativo de organização, mais “racional” que a obsoleta estrutura imperial.

O Exército despontava como uma corporação coesa, decidida a romper com o papel secundário que lhe cabia no Estado dos grandes proprietários escravistas. Em 1887, a criação do Clube Militar presidido por Deodoro da Fonseca, dotou a corporação de um órgão mobilizador, apto a preparar a participação dos militares na cena política.

Uma de suas primeiras posições foi a moção dirigida à Princesa Isabel. deixando clara a recusa dos militares em participar na captura de escravos fugidos. Tornava-se manifestaa ruptura como regime.

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Imagem-  sentinelalacerdista.com.br

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