Modernismo no Brasil – Contexto Histórico


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Com relação ao Brasil, o termo “modernismo” designa um movimento artístico que, no começo do século XX, revolucionou o panorama da literatura, das artes plásticas e da música, iniciando também um processo de renovação da arquitetura.

Esse movimento tomou força e se constituiu em São Paulo, e seus ideais foram proclamados na famosa Semana de Arte Moderna, de fevereiro de 1922, série polêmica de conferências, recitais de música e exposições realizadas no Teatro Municipal.



A partir de São Paulo, o Modernismo encontrou ressonância em outros pontos do Brasil, até dominar todo o país e traçar, desde os anos 30, os parâmetros de sua arte e cultura. Mas o que é o Modernismo? E por que eclodiu em São Paulo?

Para encontrar respostas a essas perguntas, é preciso ter em mente que este movimento foi; antes de mais nada, o anúncio de uma mudança de visão da realidade brasileira, que expressava as transformações em curso na economia e na sociedade.

A antecipação paulista

Nas últimas décadas do século XIX, São Paulo despontava como o pólo capitalista da economia brasileira. O café, o mais valorizado produto de exportação, exigia máquinas e técnicas de beneficiamento, tornadas possíveis pela Revolução Industrial ocorrida na Europa no século XVIII.



Exigia também estradas de ferro para o escoamento da produção, portos bem aparelhados para armazenagem e embarque e também trabalhadores livres, de maior rendimento e bem menos onerosos, em termos de capital imobilizado, que a mão-de-obra escrava.

A partir de 1870, os grandes cafeicultores paulistas começaram a tornar-se firmes adeptos da causa republicana, por eles identificada ao livre ingresso no país dos imigrantes requeridos pelas plantações.

Afinal, “um colono vale mais que três escravos”, dizia-se na época, e o dinheiro necessário à compra de 100 escravos era suficiente para recrutar nada menos que 1 666 imigrantes.

Nas cidades começaram a surgir pequenos estabelecimentos, que reuniam poucos trabalhadores, desbravando os caminhos da sociedade industrial.

As chapelarias, cervejarias, oficinas semi-artesanais e demais fábricas de fundo de quintal empregavam sobretudo trabalhadores imigrantes, gente com experiência dos conflitos entre capital e trabalho, e que trouxera para o Brasil uma nova reflexão sobre um mundo cada vez mais dominado pela técnica.

A arte dos novos tempos

Um dos resultados deste processo foi a aclimatação, no Brasil, das idéias anarquistas e socialistas que então floresciam na Europa. Outro resultado foi a preocupação da literatura e das artes plásticas em retratar a nova realidade urbano-industrial.

Os artistas brasileiros do início do século XX começaram a se insurgir contra os padrões acadêmicos da pintura, da música e da literatura, que não correspondiam ao mundo em transformação. As primeiras manifestações modernistas do Brasil ocorreram na literatura, em escritores isolados do século XIX, que não tiveram repercussão.

Os poetas Pedro Kilkerry, da Bahia, e Sousândrade, do Maranhão – analisados pelo poeta e ensaísta Augusto de Campos – e o teatrólogo José Joaquim de Campos Leão, dito Qorpo Santo, do Rio Grande do Sul, são três nomes desse pré-modernismo isolado.



Na obra dos dois poetas nota-se uma preocupação com a síntese e com a análise do mundo moderno que já é anúncio de uma mudança. E nas peças de Qorpo Santo estão expressas de modo singular as inquietações de um novo homem, produto de um novo mundo.

Num expressionismo que beira a loucura, Qorpo Santo antecipou-se a muitas vanguardas que no século XX fariam sucesso na Europa, mas sua obra permaneceu no esquecimento, até ser descoberta e reavaliada a partir dos anos 60.

O confronto

Apesar desses autores pioneiros, o Modernismo só definiria seu alcance no ambiente paulistano da segunda década do século XX- Nesse momento, o avanço industrial já contrariava a imagem de um país “essencialmente agrícola”.

São Paulo habituara-se às divergências e mesmo aos conflitos de interesse entre cafeicultores e industriais emergentes, e entre estes e trabalhadores fabris. Em 1913, o pintor russo Lasar Segal, radicado em São Paulo, já inquietava o público ao apresentar telas que mostravam uma nova realidade, calcada nos movimentos de vanguarda europeus.

A grande manifestação desse conflito de visões de mundo, porém, foi o escândalo provocado, em dezembro de 1917, pela exposição da jovem pintora Anita Malfatti.

Recém-chegada da Europa, Anita estudara os expressionistas alemães, deixando-se influenciar por suas concepções e linguagem formal. Seus quadros distorcidos, de cores estranhas, contrariavam a tradição de pintura bem-comportada que ainda imperava no Brasil.

A guerra foi declarada quando Monteiro Lobato, que se tornaria o maior escritor de literatura infantil do país e nessa época iniciava sua carreira, publicou o artigo “Paranoia ou Mistificação?”, atacando a arte de Anita.

Em defesa da pintora acorreram inúmeros artistas e intelectuais: os pintores Vicente do Rego Monteiro, Di Cavalcanti e Tarsila do Amaral, os escritores Graça Aranha, Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho, Guilherme de Almeida e Cândido Mota Filho, entre outros.

A defesa de Anita Malfatti foi, na verdade, o meio de sensibilizar os intelectuais e artistas plásticos em tomo de uma nova proposta: a partir de 1917, os modernistas passaram a lutar pelo abrasileiramento da arte, pela liberdade de criação e captação das contradições da moderna sociedade urbana e industrial.

Em literatura, esta tomada de posição liquidou com o Parnasianismo. Ainda em 1916, Oswald de Andrade escreveu o romance Memórias Sentimentais de João Miramar, de estilo experimental, telegráfico.

enaltecendo o dinamismo das cidades. Nessa obra está presente a influência do Futurismo italiano de Marinetti – que faz apologia do mundo dominado pela indústria e pela técnica – e do movimento modernista português, proclamado pela revista Orpheu.

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Imagem- cidadedasartes.org