Lampião – Quem foi? O que ele fez? O que é um Cangaceiro?


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Para Antônio Conselheiro e seus seguidores, a rejeição da miséria e das condições sociais que degradavam a comunidade sertaneja foi feita por intermédio do misticismo e da religião. Mas nem todos tinham fé e paciência suficientes para esperar pela salvação divina.

Havia um caminho mais imediato e prático: a violência como estratégia de vida, a sobrevivência de armas na mão. Essa foi a seara escolhida pelos bandos de cangaceiros do Nordeste.



Lampião

De todos os cangaceiros que agiram no Nordeste, nenhum personificou o herói popular melhor do que Lampião. Caçula de três irmãos, Virgulino Ferreira da Silva nasceu em 1898 na comarca de Vila Bela, atual Serra Talhada, Pernambuco.

Seu pai era um próspero sitiante e tinha a intenção de fazê-lo estudar. Aos 9 anos Virgulino foi para o colégio interno, de onde saiu com 14 anos. Nessa ocasião, contrariando a vontade paterna, recusou-se a prosseguir os estudos.

Gostava da vida do campo e ficou ajudando o pai na fazenda. A propriedade familiar fazia limite com as terras de João e Raimundo Nogueira, dois políticos muito influentes na região. Os vizinhos tentaram comprá-la por várias vezes; ante a insistente negativa do pai de Virgulino, contrataram três capangas para matá-lo.



O assassinato foi consumado quando o velho se encontrava sozinho em casa. Encontrando o pai morto, os três irmãos procuraram a ajuda da polícia, que se recusou a investigar o caso, declarando-se impossibilitada de agir contra “os grandes do Estado”.

Tomando a justiça nas próprias mãos, Antônio, Livino e Virgulino empenharam-se numa verdadeira guerra. Após várias investidas, mataram os dois Nogueira. O pai estava vingado. Os irmãos, que já não podiam retornar ao dia-a-dia da fazenda, passaram a integrar então o bando de Sinhô Pereira.

Virgulino logo se destacou por sua audácia e capacidade de liderança. Já nessa época tinha o apelido de Lampião, pois, segundo a lenda, durante um tiroteio sua arma disparava tão repetidamente que ao longe se via o clarão, como se fosse um lampião. Em 1922, quando Sinhô Pereira abandonou o cangaço, Lampião assumiu a chefia do bando.

O “Capitão Virgulino”

Por seus sucessivos ataques a cidades e fazendas, roubos e pilhagens, e também pelo tratamento impiedoso que dava aos inimigos, Lampião tornou-se conhecido em todo o Nordeste.

Atuava numa vasta área, que abrangia os vales dos rios Pajeú, Flores e Moxotó, em Pernambuco; a zona do Cariri, no Ceará; o vale do rio Piranhas, na Paraíba e Rio Grande do Norte; o agreste alagoano e o raso da Catarina, ao norte da Bahia.

Em 1926, sua fama já era tão grande que seu padrinho e protetor, o padre Cícero Romão Batista, de Juazeiro, mandou chamá-lo para organizar o combate à Coluna Prestes, que se aproximava do Nordeste. Em troca, prometia-lhe armamento e uma patente de capitão do Exército.

A iniciativa da proposta partiu de Floro Bartolomeu da Costa, líder dos “coronéis” do Cariri, mas o Governo opôs-se ao acordo, e Lampião desistiu da empreitada. Não renunciou, entretanto, ao título de “Capitão Virgulino”.

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Maria Bonita

No ano seguinte, Lampião empreendeu um de seus ataques mais famosos. Deslocando-se para o Rio Grande do Norte com cinqüenta cangaceiros, sitiou Mossoró e exigiu do prefeito “400 contos de réis para desistir de pilhar a cidade”. A proposta foi ignorada, mas, aprisionados três reféns, conseguiu 50 contos como resgate.

Em 1928, um acontecimento mudaria sua vida. Fugindo das volantes, Lampião chegou à fazenda Malhada onde encontrou Maria, a filha do proprietário. Segundo consta, ela teria dito: “Esse é o homem que eu amo. Como é, quer me levar ou quer que eu o acompanhe?” E Lampião não resistiu: “Como você quiser, Maria Bonita, eu também quero”.

A presença de Maria Bonita e outras mulheres no bando de Lampião foi um fato inédito no cangaço. Todos os principais chefes do bando constituíram famílias e a estabilidade dessas relações só foi interrompida com a morte. As mulheres tinham participação ativa na vida dos cangaceiros , inclusive nos combates.

A moral era rígida e imperava um grande respeito mútuo entre o casal. Na década de 30, a vida dos cangaceiros ficou mais difícil ainda. O policiamento, controlado por um governo fortemente centralizado, tornou-se mais eficiente. As ferrovias recém-implantadas facilitavam o rápido deslocamento de tropas.

Algumas testemunhas contam que nessa época Lampião pensava em abandonar o cangaço. Mas não tinha saída. Perseguido em vários Estados, teve que continuar pilhando e fugindo para sobreviver.

Em 1938, quando o bando se escondia e recuperava suas forças na fazenda Angico, em Sergipe, viu-se cercado pelas tropas do tenente João Bezerra, da Força Pública de Alagoas. Apanhados de surpresa, os bandoleiros foram dizimados.

Lampião, Maria Bonita e nove outros cangaceiros foram mortos, degolados, suas cabeças expostas na escadaria da igreja da cidade de Santana do Ipanema.

Essas cabeças, mumificadas, fizeram parte do acervo do Museu Nina Rodrigues, em Salvador, até que, nos anos 70, um longo processo judicial foi vencido pela família de Virgulino Ferreira. Só então as cabeças foram enterradas junto aos corpos dos cangaceiros.

O fim de uma época de cangaceiros

Depois da morte de Lampião, o cangaço perdeu o vigor. O Brasil e o Nordeste se transformavam. Corisco – o Diabo Loiro – organizou seu próprio bando e chegou a desfechar vários ataques em vingança pela morte do antigo chefe, mas o cangaço já começava a pertencer ao passado do sertão.

E com a morte de Corisco, em 1940, deixou definitivamente de existir, embora a luta pela posse da terra, fundamento do fenômeno do cangaço, continuasse presente na vida brasileira até a atualidade.

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Imagem- aventurasnahistoria.uol.com.br       imperioretro.com