Inconfidência Mineira: Consequências, Causas e Tiradentes


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“Foi trabalhar para todos… – e vede o que lhe acontece! Daqueles a quem servia, já ninguém mais o conhece. Quando a desgraça é profunda, que amigo se compadece?” (Romanceiro da Inconfidência Mineira, de Cecilia Meireles – versos acerca do destino de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.)

Inconfidência Mineira

Na penúltima década do século XVIII, Lisboa decidiu intensificar a repressão e exigir o pagamento dos impostos atrasados.



No mesmo período, a elite de Vila Rica, principal centro de inquietação intelectual e política da Colônia, baseava-se nos escritos dos iluministas e nas realizações da jovem república norte-americana para questionar a legitimidade da dominação portuguesa.

O terreno estava pronto para os projetos (ainda nebulosos) dos inconfidentes: liberdade, independência, república e abolição parcial do trabalho escravo.

Em julho de 1788 chegou a Vila Rica o visconde de Barbacena, Luis Antônio Furtado de Mendonça, encarregado de promover a cobrança imediata dos impostos atrasados. Deveria ainda concluir os contratos de arrematação de diamantes, obrigando seus titulares a pagar as vultosas somas que deviam à Coroa.



Para a maioria dos estudiosos da Inconfidência Mineira, a perspectiva da decretação da derrama foi o principal fator de mobilização.

Os inconfidentes mais ricos, donos de lavras ou integrantes da administração, viram-se subitamente ameaçados de perder seu patrimônio: sabiam, além disso, que os setores mais pobres sofreriam ainda mais com a medida, e que uma mobilização anti-fiscal conquistaria enorme apoio popular.

Entre esses inconfidentes diretamente ligados à mineração estavam Alvarenga Peixoto, poeta e fazendeiro, dono de lavras de ouro, e o padre José da Silva de Oliveira Rolim, envolvido no rendoso tráfico de escravos e diamantes.

Tiradentes

Outro grupo de inconfidentes correspondia aos partidários da Inconfidência Mineira em moldes republicanos, conforme o modelo dos Estados Unidos da América.

A esse grupo pertenciam José Alvares Maciel – jovem de 27 anos, filho do capitão-mor de Vila Rica, influenciado pelas concepções do iluminismo e do liberalismo econômico durante seus estudos em Coimbra e na Inglaterra – e o alferes e dentista prático Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes.

Havia também os poetas-inconfidentes, que mostravam graus extremamente variáveis de adesão aos ideais revolucionários. E um último grupo, o mais influente, que reunia os que pretendiam simplesmente escapar ao pagamento dos impostos. Desse grupo “apolítico” partiria a denúncia da conspiração.

Inconfidência Mineira

As primeiras reuniões ocorreram em dezembro de 1788, na casa de Francisco de Paula Freire de Andrade, comandante do Regimento dos Dragões (a que pertencia Tiradentes).

Gradativamente, os participantes puseram-se de acordo quanto ao programa do movimento: república, criação de manufaturas – as poucas  existentes no Brasil haviam sido extintas em 1785, por ordem de Dona Maria 1 -, criação de escolas e de uma universidade em Vila Rica.



Já o problema da abolição da escravatura desencadeou fortes polêmicas. Álvares Maciel mostrava-se relutante, temendo a falta de mão-de-obra nas minas; outros enfatizavam o apoio que os escravos libertados dariam à causa da independência na Inconfidência Mineira.

Aparentemente, chegou-se a uma solução conciliatória: seriam libertados os nascidos no Brasil, mas não os trazidos da África. Paralelamente, os conjurados tomaram algumas decisões quanto à condução do movimento da Inconfidência Mineira.

O padre Rolim foi encarregado de sublevar o Distrito Diamantino, enquanto Tiradentes recebia a coordenação da propaganda autonomista. Outros foram incumbidos de dominar a Capitania das Minas Gerais e estender o movimento a São Paulo e Rio.

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A denúncia

A 15 de março de 1789, o “apolítico” Joaquim Silvério dos Reis decidiu não esperar e denunciou seus companheiros de conspiração ao governador, almejando ter perdoadas suas dívidas junto à Fazenda Real. O visconde de Barbacena limitou-se a suspender a derrama.

Novas delações ocorreram até que, em fins de março, Barbacena comunicou o que se passava a seu tio, o Vice-Rei Luís de Vasconcelos.

Este intensificou a vigilância no Rio e deslocou tropas para Minas Gerais. Seguiu-se a prisão dos principais conjurados – e as torturas, para arrancar novas delações. Tiradentes foi capturado no Rio de Janeiro, a 10 de maio; Tomás Antônio Gonzaga, em Vila Rica, a 21. Logo todos estavam presos.

A 4 de julho, Cláudio Manuel da Costa, decano da Plêiade Mineira, foi encontrado morto em sua cela na Casa dos Contos. Os demais inconfidentes – à exceção de Domingos de Abreu Vieira, compadre de Tiradentes foram levados para o Rio de Janeiro, onde permaneceram presos durante três anos, aguardando a sentença.

Trinta anos de infâmia

Foram os milhares de páginas do processo dos inconfidentes que revelaram para os brasileiros a figura do mártir da Independência. Tiradentes não era o mais culto nem o de maior prestígio entre os envolvidos. No entanto, segundo os juízes, fora ele “o primeiro que suscitou as idéias de república”, o principal responsável pelo “abominável intento de conduzir os povos da capitania de Minas a uma rebelião”.

Além disso, o alferes-dentista conservou uma extrema dignidade durante os longos meses de interrogatório, enquanto inúmeros intelectuais se desdiziam, procuravam conquistar as boas graças de Lisboa. Em 1792 – ano em que Dona Maria 1 foi declarada louca – foram decretadas as sentenças dos “traidores”.

Tomás Antônio Gonzaga e Vida] Barbosa, considerados menos envolvidos, foram punidos com degredo temporário. Os padres seguiram para Lisboa, sendo encarcerados durante quatro anos e, depois, encerrados em vários conventos.

Outros inconfidentes foram condenados à morte, tendo posteriormente sua pena transformada em degredo perpétuo. Em relação a Joaquim José da Silva Xavier, a Coroa foi implacável.

A forca, a 21 de abril de 1792; a seguir cortaram-lhe a cabeça, exposta em Vila Rica, e dividiram o seu corpo em quatro partes, pregadas nos locais “onde o réu teve as suas infames práticas”. Seus filhos e netos foram declarados infames, a casa em que vivia em Vila Rica foi “arrasada e salgada, para que nunca mais no chão se edifique”.

Trinta anos depois o neto de Dona Maria 1 proclamaria a independência do Brasil, e o “abominável réu” passaria a ser visto como um precursor da decisão do Ipiranga.

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A BANDEIRA DA INCONFIDÊNCIA MINEIRA

A escolha de uma bandeira para o movimento provocou sérias discussões entre os inconfidentes. Tiradentes sugeriu um símbolo triangular, representativo da Santíssima Trindade; outros propunham afigura de um índio rompendo os grilhões da opressão, acompanhada do início de um verso do poeta latino Virgílio: Libertas qual sera tamen – ”A liberdade, que, embora tardia…”

No Romanceiro da Inconfidência Mineira, Cecília Meireles aborda essas discussões quanto à bandeira republicana:

“Atrás de portas fechadas,

à luz de velas acesas,

entre sigilo e espionagem, acontece a Inconfidência.

E diz o Vigário ao Poeta:

‘Escreva-me aquela letra

do versinho de Virgílio. . -, E dá-lhe o papel e a pena.

E diz o Poeta ao Vigário,

com dramática prudência:

‘Tenha meus dedos cortados,

antes que tal verso escrevam…’

Liberdade, ainda que tarde,

ouve-se em redor da mesa.

E a bandeira já está viva,

e sobe, na noite imensa.

E os seus tristes inventores

já são réus – pois se atreveram

a falar em Liberdade (que ninguém sabe o que seja).

E a vizinhança não dorme:

murmura, imagina, inventa.

Não fica bandeira escrita,

mas fica escrita a sentença.

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