Idade do Ouro no Brasil: Descoberta em Minas Gerais

idade-do-ouro-no-brasil

Ocupação dos sertões, multiplicação dos núcleos urbanos, formação de uma sociedade menos hierarquizada, a mais livre que o Brasil já conhecera foram muitos os frutos da Idade do Ouro na Colônia que despontava para sua independência, e que Portugal tentava inutilmente controlar.

A procura de metais preciosos foi sempre um objetivo dos colonizadores portugueses, desde a expedição de Martim Afonso de Sousa, em 1530.

Momentos houve em que essa procura foi menos urgente, quando o açúcar fornecia lucros imensos e quando o apresamento dos índios garantia a prosperidade da população de São Paulo.

Mas, na segunda metade do século XVII, tanto a empresa açucareira quanto o bandeirismo de apresamento entraram em declínio. A busca na Idade do Ouro, então, voltou a ser prioritária.

Os roteiros da Idade do Ouro

Os bandeirantes de São Paulo possuíam uma longa tradição de desbravamento do interior. E foi a partir da experiência acumulada em sucessivas gerações que os bandeirantes puderam chegar, afinal, às regiões auríferas.

Em 1694, Bartolomeu Bueno da Siqueira e Manuel Ortiz de Camargo e Arzão encontraram as primeiras minas na região de Itabetaba. No mesmo ano, Miguel Garcia chegou ao ribeiro aurífero de Galaxo do Sul.

Nos anos seguintes multiplicaram-se as descobertas: Tripui, itacolomi e Ribeirão do Carmo (1695/96), devidas respectivamente a Manuel Garcia, o Velho; Belchior da Cunha Barregão e Bento Leite da Silva; e Salvador Mendonça Furtado.

Descoberta em Minas Gerais

Em 1698, Antônio Dias de Oliveira encontrou as enormes jazidas de Vila Rica. Os achados prosseguiram até a metade do século XVIII, com a constante ampliação da zona mineradora. Para oeste, o ouro foi encontrado em Cuiabá (1719), Goiás (1725) e Paracatu (1744), localidade do atual Estado de Minas Gerais.

Mais ao norte surgiram as minas de Araçui (1727), já nos limites entre Minas e Bahia. E, em 1727, a descoberta de jazidas de diamantes veio tornar ainda mais movimentada a região das Minas Gerais, centralizada em Vila Rica, hoje Ouro Preto.

A corrida do ouro atraía gente de todas as capitanias, e também remóis que desembarcavam no Brasil em busca de riqueza fácil. Segundo estimativa da época, em 1711 havia cerca de 30 000 pessoas envolvidas na exploração na Idade do Ouro.

A fiscalização portuguesa

Em 1702 a Coroa portuguesa modificou o conjunto de leis sobre a extração de metais preciosos. De acordo com o novo Regimento das Minas, a exploração das jazidas era livre e a Coroa tinha direito a um quinto do metal extraído.

As descobertas deveriam ser imediatamente comunicadas às autoridades, que providenciariam a demarcação das datas ou lotes a serem distribuídos. O descobridor tinha o direito de escolher em primeiro lugar, e a Fazenda Real também ficava com um lote, que vendia em leilão.

Os lotes restantes eram repartidos entre os candidatos; tinha prioridade quem possuísse maior número de escravos. Todas essas tarefas ficavam a cargo de um órgão especialmente criado para esse fim: a Intendência das Minas, que também cuidava de zelar pela obediência ao Regimento, pela cobrança do quinto, pela superintendência dos trabalhos de mineração e pela resolução de questões surgidas entre os mineradores.

Vários foram os sistemas adotados para cobrar o quinto destinado à Coroa. Devido à dificuldade de controlar o contrabando na Idade do ouro, as autoridades criaram, em 1725, as Casas de Fundição, onde todo minerador deveria entregar o ouro em pó extraído.

Aí o metal era fundido em barras e devolvido ao minerador, depois de retirado o quinto. Outro sistema de arrecadação utilizado foi a cobrança por escravo ou bateia. E, no auge da atividade extrativa (1750/62), fixou-se a parte devida à Metrópole em 100 arrobas por ano.

Esse montante não foi alterado, mesmo quando a mineração declinou. E quando, para completar as 100 arrobas de ouro exigidas, houve a decretação da derrama, a indignação popular manifestou-se em um movimento de luta contra a opressão, a Inconfidência Mineira.

Mesmo antes da Inconfidência (1789) muitas rebeliões já haviam eclodido, entre as quais a de Filipe dos Santos.

Diferentemente das populações nordestinas, que conviveram desde o inicio do século XVI com a autoridade metropolitana, sem grandes conflitos, a população mineira sentiu – num prazo muito mais concentrado – o impacto da violência do controle fiscal e da subordinação à Metrópole sedenta da Idade do ouro.

idade-do-ouro-mineiracao

O trabalho nas minas

Grande parte do minério encontrado na Idade do ouro em território brasileiro constituiu-se do chamado ouro de aluvião ou de lavagem, presente nos regatos e em suas margens.

Nesses córregos auríferos os mineradores utilizavam-se, em geral, da técnica mais simples de extração na Idade do ouro de superfície: a técnica da bateia. As explorações de pequeno porte eram denominadas faisqueiras; as maiores, lavras.

Com o esgotamento gradativo do ouro de lavagem teve início a exploração na Idade do ouro de rocha, descoberto por volta de 1712. Inicialmente, exploraram-se as jazidas superficiais. Quando estas começaram a esgotar, a extração do minério na Idade do ouro de rocha exigiu a abertura de galerias no interior dos morros, perseguindo os veios.

Essas galerias eram feitas de modo precário, e seu desmoronamento soterrava, muitas vezes para sempre, jazidas ainda produtivas. As técnicas rudimentares também acarretavam a perda de grandes quantidades na Idade do ouro de aluvião, misturado à lama constantemente revolvida dos riachos.

Tudo isso se refletiu no rápido declínio da atividade mineradora. No auge da extração aurífera, em meados do século XVIII, a produção chegou a atingir 15 760 kg de ouro por ano.

Em 1780, a extração era inferior a 3 500 kg por ano. A mão-de-obra predominante nos trabalhos de mineração, no “a Idade do ouro”, era a dos escravos negros. Suas condições de vida e de trabalho eram péssimas, pois eram explorados até o limite de suas forças: seus proprietários despendiam o mínimo para mantê-los.

Muitos morriam devido aos maus tratos recebidos – ou desapareciam, soterrados nas galerias mal construídas das minas. Cronistas da época estimam que morriam cerca de 7 000 negros por ano na região mineira.

O tráfico de escravos africanos atingiu seu apogeu na época da mineração, a ponto de existirem, em 1776, cerca de 250 000 negros para uma população total de 320 000 habitantes na Capitania das Minas Gerais.

O negro não trabalhava somente na extração do minério na Idade do ouro, mas era utilizado em inúmeras outras atividades: trabalhava em construções, era cozinheiro, transportava objetos ou pessoas, lavrava os campos e exercia até mesmo alguns ofícios urbanos, como o de alfaiate ou sapateiro.

Algumas vezes, um ou outro negro era premiado com a alforria por haver descoberto uma pedra de maior valor. Outros conseguiam contrabandear o minério na Idade do ouro suficiente para comprar sua liberdade. Outros, ainda, fugiam e se agrupavam em quilombos.

Mas a grande maioria dos negros permaneceu nas duras condições de trabalhador escravizado, até que o declínio da atividade mineradora deslocou-os para outras regiões. Nesse período muitos senhores libertaram seus escravos, pois não era compensador sustentá-los.

idade-do-ouro

A urbanização

A partir de 1709, com a criação da Capitania de São Paulo e Minas da Idade do Ouro, começou a ser aplicada uma política deliberada de fundação de cidades, com o intuito de garantir a fiscalização da atividade mineradora e impedir o contrabando fortíssimo que havia na Idade do ouro.

As condições existentes possibilitavam a aplicação dessa política, uma vez que o grande afluxo de pessoas para a região resultara na criação de aglomerados humanos de caráter relativamente estável. Foi o caso da Vila do Ribeirão de Nossa Senhora do Carmo (1711), que em 1745 se tornou a cidade de Mariana.

Em 1711 surgiu ainda a Vila Real de Nossa Senhora da Conceição de Sabará e oficializou-se a Vila Rica de Albuquerque, a atual cidade de Ouro Preto, formada a partir da reunião de diversos arraiais auríferos.

Entre 1713 e 1718 despontaram outras vilas, destacando-se as de Pitangui, São João dei Rei, São José dei Rei (depois chamada de Tiradentes), Vila Nova da Rainha (atual Caeté) e outros núcleos.

Nem todos os habitantes desses centros, porém, se dedicavam à atividade mineradora. Cerca de dois terços da população correspondia a comerciantes, artesãos, boticários, prestamistas, taberneiros, estalajadeiros, clérigos, médicos, cirurgiões, barbeiros, mestre-escolas, tropeiros etc.

A população de escravos era também bastante significativa: cerca de 100 000 pessoas na região. Paralelamente, a riqueza trazida na Idade do ouro favoreceu a construção de igrejas, sobrados e palácios e estimulou o aparecimento de entalhadores e escultores que trabalhavam na decoração desses edifícios. Dentre estes, o mais famoso foi Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Mobilidade social

A sociedade característica das cidades mineiras era muito diferente daquela desenvolvida no nordeste açucareiro. Na região das minas, apesar da opressão portuguesa, os indivíduos possuíam margem de liberdade bem mais ampla, pois existiam alternativas de profissões relativamente bem pagas nos centros urbanos.

Muitos mulatos, filhos de escravos, receberam a alforria e tornaram-se artífices respeitados ou músicos de valor, requisitados pelas irmandades religiosas e autoridades oficiais.

Assim, a sociedade, tanto em termos de hierarquia social quanto em termos de padrões e valores tradicionais, era bem menos rígida que a existente até então.

Transformações na Colônia

A mineração modificou bastante o acanhado panorama do Brasil do início do século XVIII. Em primeiro lugar, transferiu o núcleo da economia para o centro-sul do país, até então praticamente à margem do esquema econômico do colonizador.

A primeira consequência da descoberta do ouro foi o afluxo de grande número de pessoas para a região, motivando o primeiro surto urbano da História do Brasil.

O comércio na Idade do ouro e de outras mercadorias trazidas de Portugal passou a ser realizado pelo porto do Rio de Janeiro, o mais próximo da região mineira. Devido à condição de escoadouro do metal, esta cidade conheceu um grande desenvolvimento e acabou por se transformar na capital da Colônia, em 1763.

O comércio desenvolveu-se em uma ampla zona do centrosul do país. Chegavam à região das minas mercadorias não só do porto do Rio de Janeiro, como também de São Paulo e de regiões mais ao Sul. O Nordeste também se tornou um centro abastecedor das populações mineiras.

Envolvida na mineração e limitada em suas possibilidades de desenvolver a agricultura, a população das Minas Gerais dependia do abastecimento realizado por todas essas regiões.

O transporte dos produtos era feito por tropas de muares – basicamente fornecidas pelas populações dos campos do Sul – que percorriam as trilhas abertas entre as regiões abastecedoras e a consumidora.

Aos poucos as trilhas foram sendo ampliadas e se transformaram em precárias estradas que permitiram a ligação entre as capitanias do Brasil colônia.

Por isso se diz que a atividade mineradora integrou as várias regiões brasileiras através do comércio, tendo a Capitania das Minas Gerais como o motor propulsor.

Gostou do nosso artigo sobre a Idade do Ouro? Compartilhe!

Imagens- pt.wikipedia.org/wiki/Chica_da_Silva      saibahistoria.blogspot.com.br

Add a Comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *