Guerra dos Macates: Quem eram, Líderes e Desfecho


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Confronto entre cidades, entre nacionalidades e, sobretudo, entre setores da elite colonial, a guerra dos Mascates representou a última tentativa dos senhores de engenho de Pernambuco no sentido de conservar o monopólio do poder político, num momento em que os canaviais aceleravam a sua franca decadência.

A crise dos engenhos

Na origem do conflito estava a queda dos preços e a retração dos mercados do açúcar nordestino, intimidados pela ofensiva do açúcar produzido pelos holandeses nas Antilhas a partir da segunda metade do século XVII.



Além disso, nos primeiros anos do século XVIII a situação agravou-se ainda mais, quando os escravos se deslocaram do Nordeste para a zona de mineração no Brasil central, provocando o encarecimento da mão-de-obra.

Os senhores de terra radicados em Olinda empobreciam. A vila, queimada durante a ocupação holandesa, fora reconstruída e elevada à categoria de cidade em 1676; era sede administrativa e de bispado.

Essa “aristocracia açucareira”, com longa folha de serviços na expulsão dos holandeses, detinha todos os postos de mando da cidade. Paralelamente, o povoado do Recife conhecia acentuada expansão e prosperidade.



Apesar de simples bairro de Olinda, o Recife tinha atividades comerciais tipicamente urbanas a partir da dominação holandesa.

Quem eram

Comerciantes, gente vinda do Reino, portugueses e judeus buscavam oportunidades e riqueza. Boa parte dessa riqueza provinha dos infortúnios dos senhores de engenho, obrigados a vender seu açúcar a preços tão baixos que não cobriam os gastos gerais nem os custos da dispendiosa mão-de-obra escrava.

Com isso aumentavam suas dívidas junto à praça do Recife, levando-os à beira da ruína. Naturalmente, os olindenses sentiam-se lesados pelos negociantes e agiotas. Além disso, a fortuna da gente do Recife era uma ameaça ao patrimônio político de Olinda, pois os mascates — como os olindenses chamavam depreciativamente os negociantes do Recife – pretendiam postos no governo e na milícia.

Tais temores se confirmaram em 1703, quando os mascates conquistaram o direito de votar e elegeram um vereador. A seguir, os recifenses pleitearam a elevação de seu povoado à categoria de vila. O título implicava a construção do símbolo dessa dignidade, o pelourinho, bem como a autonomia política e a auto-administração por uma Câmara de Vereadores.

Enfim, significava tornar-se independente de Olinda. E a reivindicação obteve as graças do governador da capitania, Sebastião de Castro e Caldas, empossado a 9 de junho de 1707. Em 19 de novembro de 1709 uma carta régia tornou o Recife independente da jurisdição de Olinda.

Motivos

Dom José Inácio de Arouche. Como este era ligado à “nobreza” olindense, e portanto contra os planos dos mercadores, foi substituído em junho de 1710 por Luís de ValenzueIa Ortiz.

Em fevereiro de 1710 fora erigido o pelourinho, uma vez que Castro e Caldas tinha pressa em investir a cidade de sua nova categoria e instalar aí o governo central. Para o funcionamento inicial da Câmara, tinham sido escolhidos os vereadores Joaquim de Almeida e Simão Ribeiro Ribas — ambos reinóis —, Manuel de Araújo Bezerra e Luís de Souza Valadares.

A novidade indignou Olinda. Mas, como era providência régia, não podia ser afrontada diretamente. No entanto, o problema da jurisdição — que os olindenses entendiam dever restringir-se ao porto, a Santo Antônio, Boa Vista e Afogados, enquanto os recifenses queriam estender às freguesias de Cabo, Ipojuca e Muribeca – ofereceu pretexto para que a revolta se expandisse.



As exigências de Olinda

Sucederam-se então as discussões, na Câmara, sobre quem iria exercer o poder. Uns queriam o bispo de Olinda, Dom Manuel Alvares da Costa. Outros lançavam o nome de Bernardo Vieira de Meio, proprietário rural, ex-governador do Rio Grande do Norte e figura de grande projeção na sociedade local.

Por fim, decidiu-se colocar o bispo no poder. Quando a decisão foi cumprida, exigiu-se dele um compromisso formal de conivência.

Para tanto foi-lhe entregue um programa com os seguintes itens, que todos os governadores, ouvidores e juízes morem na cidade, e só dois ou três meses no Recife, em tempo de frota, para a expedição dela”; “Que el-Rei conceda porto franco a duas naus estrangeiras fora do corpo da frota, as quais não carregarão nada mais que açúcar”.

E este, o verdadeiro programa da revolta, que desforrava os olindenses dando origem a uma revolta que viria ser a guerra dos mascates: “Que por demora que possa haver em quaisquer pagamentos se não lucrarão juros, nem lucro, algum”. O prelado assumiu o Governo a 15 de novembro de 1710.

Enquanto isso, Castro e Caldas era encerrado, pelo governador-geral, em uma fortaleza baiana. Em Pernambuco, porém, fora prodigalizado o perdão geral, medida selada pela carta régia de 8 de junho de 1711.

O revide

Os recifenses, mais que o perdão, queriam a desforra. Veicularam o boato de que Castro e Caldas seria solto e voltaria com muitos homens. E, liderados pelo capitão-mor da Paraíba, João Maia da Gama, rebelaram-se a 18 de junho de 1711.

Correndo ao convento do Carmo, onde estavam presos os refratários à nova ordem, libertaram-nos aos gritos de “viva el-Rei, morte aos traidores.” Além do mais, aprisionaram o bispo governador e Bernardo Vieira de Meio. O bispo conseguiu, porém, fugir para Olinda e organizar a defesa da vila, mandando cercá-la de trincheiras.

Constituiu-se simultaneamente uma junta governamental integrada pelo ouvidor Luís de Valenzuela Ortiz – antigo partidário do Recife -, pelo mestre de campo Cristóvão de Mendonça e pelos vereadores Domingos Bezerra Monteiro, Antônio Bezerra Cavalcanti e Estevão Soares de Aragão.

Dom Manuel Alvares pensou vencer a guerra dos mascates pela fome, sitiando o Recife. Além disso, os senhores de engenho formaram três arraiais diante da cidade inimiga – Afogados, Boa Vista e Olinda – e providenciaram uma força para dar combate à coluna que deixara Serinhaém, a sudeste de Pernambuco, a fim de socorrer os recifenses.

Desfecho da Guerra dos Mascates

Junto aos montes Guararapes – cerca de 15 km ao sul da cidade cercada – deu-se o encontro das duas forças. Venceram os que lutavam pelo Recife.

Mas a revanche veio em Garapu, nas proximidades da lagoa do mesmo nome. A luta estava em pé de igualdade, quando aportou no Recife a esquadra com o novo governador, Félix José Machado de Mendonça Eça Castro e Vasconcelos.

Com ele vinha a promessa de perdão geral, que fez a nobreza fatigada e os negociantes de Recife confiantes deporem as armas ali dava-se o fim da guerra dos mascates. Segundo exigências do novo governador, o bispo reassumiu para transmitir-lhe o governo, perante a Câmara local, a 10 de outubro de 1711.

Mas o governador logo revelou sua inclinação na guerra dos mascates pelos comerciantes de Recife – e, com a mesma rapidez, foi tramada uma conspiração contra sua vida. Informado, Castro e Vasconcelos desencadeou a repressão. Foram presas mais de 150 pessoas, e muitos olindenses influentes retiraram-se para o Sertão.

Os indiciados perderam seus bens, e cinqüenta dentre os mais ilustres foram remetidos à Corte, depois de acusados de crime de lesa-majestade e inconfidência.

Foi assim que Bernardo Vieira de Meio e seu filho morreram na prisão, em Lisboa. Finalmente, a Câmara de Olinda apelou para Dom João V no sentido de terminar com a repressão, e, a 7 de abril de 1714, chegavam ordens para que fossem suspensas as violências. Mas o Recife era mantido na condição de vila e como sede da Capitania de Pernambuco.

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Imagem-  pt.wikipedia.org