Guerra de Canudos: Consequências, Motivos e Fim


guerra-de-canudos

Nessa época proliferaram pelo sertão os missionários itinerantes, a quem o povo chamava “beatos”. Eram produto de reformas introduzidas na atuação da Igreja no Nordeste a partir de 1860.

Procurando um contato mais estreito com as comunidades, a Igreja criou várias Casas de Caridade, onde era admitido o trabalho leigo. A alguns desses leigos era permitido percorrer a região, evangelizando crentes, reparando igrejas e cemitérios. Era o trabalho a que se entregava Antônio Conselheiro. Estaria por vir a Guerra de Canudos.



Começo, Quem foi Antônio Conselheiro?

Nascido em Quixeramobim, Ceará, em 1828, Antônio Vicente Mendes Maciel teve uma infância privilegiada para uma criança do sertão. Filho de um comerciante que desejava vê-lo ordenado padre, estudou português, francês e latim.

Em 1857, um novo choque lhe eslava reservado. Fugindo com um soldado de policia, sua mulher o abandonou. Desnorteado, sem família ou profissão, Antônio Maciel passou a vagar pelos sertões, acompanhando missionários.

Um grupo de fiéis o acompanhava sempre, ajudando-o na reconstrução de igrejas e muros de cemitérios. Os padres toleravam sua atuação, alguns deixavam até mesmo que ele pregasse dentro das igrejas.



Não demorou muito para que se multiplicassem as perseguições. O beato foi preso em 1876 e, para ser solto, teve de prometer que abandonaria suas pregações. Promessa não cumprida.

No ano seguinte, o Conselheiro e seus adeptos estavam de volta aos sertões da Bahia. A implantação da República no Brasil veio transformar em franca hostilidade as relações – já tensas – entre o Conselheiro e as autoridades governamentais.

Em 1893, Conselheiro desafiou ostensivamente a República. Na praça central do município de Bom Conselho queimou as tábuas onde estavam afixados os editais que anunciavam os novos impostos a serem cobrados pelo Governo. Foi nessa época que, tendo sua prisão decretada e vendo-se obrigado a fugir das volantes, achou que chegara a hora de criar sua própria comunidade.

Uma utopia no sertão

O lugar escolhido foi a fazenda de Canudos, à beira do rio Vaza-Barris, que se encontrava abandonada. Sob a autoridade do Conselheiro, os fiéis logo se organizaram.

Todos os bens pessoais deveriam ser entregues à comunidade; cada família receberia um lote de terra para cultivar, e a produção obtida da terra seria dividida entre todos.

O povo plantava roças, fazia artesanato, construía casas e levantava a igreja de pedra que o Conselheiro dedicara ao Bom Jesus. A noite a cidade parava para rezar e ouvir as pregações do beato.

Era uma comunidade ideal, voltada para o bem comum, verdadeira utopia em pleno sertão baiano, à parte e à revelia do Brasil oligárquico e republicano. Isto a condenou à destruição.

A guerra de canudos

Em outubro de 1896, quando foram avisados de que na cidade próxima de Uauá estava uma tropa de cem praças com a missão de aprisionar o Conselheiro e dissolver o arraial, os jagunços de Canudos não se surpreenderam. Havia muito que o beato previra uma guerra que precederia o fim do mundo, com profundas transformações, resumidas na frase do Conselheiro: “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”.



No fim de tudo o Rei Dom Sebastião sairia das águas para anunciar um novo tempo de paz e justiça. Assim, guiados pela fé, os jagunços não esperaram pelo ataque. Um grupo de 1 000 guerrilheiros, com armas antiquadas ou mesmo improvisadas, partiu ao encontro da tropa, que, apanhada de surpresa, foi totalmente destroçada.

Os políticos da República não puderam tolerar uma derrota tão humilhante. Canudos passou a ser retratada como uma “fortaleza monarquista” a ameaçar a estabilidade do regime. Em dezembro de 1896 uma segunda expedição, reunindo seiscentos homens e apoiada pelo Exército, foi enviada contra o arraial.

Era comandada por um major, Febrônio de Brito, e dispunha de armas modernas: dois canhões Krupp e duas metralhadoras. Novamente as tropas subestimaram a força e a habilidade dos jagunços. Usando táticas de guerrilha, estes surpreenderam a expedição muitas vezes pelo caminho.

E de tal forma conseguiram desorganizá-la que, ao chegar a Canudos, a munição já era escassa e os soldados estavam exaustos. Sem condições de combater, o major ordenou a retirada. Essa nova derrota foi demais para as lideranças republicanas. No Congresso, vozes exaltadas exigiam o esmagamento da “conspiração monarquista”.

Fim

Em março de 1897, foi organizada uma terceira expedição, sob o comando do coronel Antônio Moreira César. Foram enviados 1 300 homens armados com 15 milhões de cartuchos e setenta tiros de artilharia. Com toda essa munição e conhecendo as táticas que o inimigo empregara das outras vezes, o coronel confiava numa vitória fácil.

O percurso até a Guerra de Canudos não apresentou dificuldades, e a expedição penetrou no arraial de Belo Monte. Era o que os jagunços esperavam. Tocaiados em cada casa, em cada beco, em cada esquina, os homens do Conselheiro combateram, espalhando o pânico entre os soldados, desnorteados naquele labirinto de vielas.

Quando Moreira César caiu morto, a tropa debandou, numa retirada vergonhosa. A lenda da Guerra de Canudos agitava a opinião pública em todo o país. A noticia de mais uma derrota infligida por fanáticos esfarrapados a uma moderna divisão do Exército acirrou o ânimo dos militaristas, que exigiam retaliação.

Comandada pelo general Artur Oscar de Andrade Guimarães, a quarta expedição reunia 5 000 homens, que, entre farto armamento, levaram dezessete canhões. Era o mês de junho de 1897. Pelo caminho, a tropa foi castigada inúmeras vezes pelas guerrilhas dos jagunços; antes de chegar a Guerra de Canudos, já perdera 1 200 homens.

Mas vieram reforços. A Guerra de Canudos continuou por muitos meses e durante todo esse tempo novos soldados foram sendo incorporados à força combatente. A última Guerra de Canudos foi travada a 5 de outubro de 1897. Documentando a Guerra de Canudos como correspondente do jornal. O Estado de São Paulo, o jornalista Euclides da Cunha estava lá.

Em suas palavras: “Canudos não se rendeu ( … ) resistiu até o esmagamento completo”. Morto pouco antes, o Conselheiro não chegou a ver o aniquilamento de seu povo. Era o fim de um sonho – ou, nas palavras de Euclides da Cunha, de um episódio na série reservada “para as loucuras e os crimes das nacionalidades…”

Gostou do nosso artigo sobre a Guerra de Canudos? Compartilhe!

Imagem- geaciprianobarata.blogspot.com.br