Franceses no Rio de Janeiro


No decorrer do século XVI os franceses, ingleses e holandeses começaras» a disputar o domínio dos mares aos portugueses e espanhóis, que resultara na formação dos gigantescos impérios coloniais dos remos ibéricos, sacramentados pelo Tratado de Tordesilhas e pela Igreja.

O rei Francisco 1, da França, chegou a dizer que desconhecia a cláusula do testamento de Adão que dividia o mundo entre portugueses e espanhóis.

A contestação permanente

Essa concorrência mercantilista entre os vários remos europeus resultou na presença, ao longo das costas brasileiras, e barcos de várias nacionalidades, interessados na extração do pau-brasil. Até 1555, essa contestação francesa apoiou-se apenas em feitorias clandestinas e nos canhões de seus navios.



Nesse ano, porém, chegaram à baía de Guanabara dois navios com o pavilhão das flores-de-lis, conduzindo cerca de seiscentas pessoas, entre comerciantes, colonos e soldados. Seu comandante era Nicolau Durand de Villegaignon, vice-almirante da Bretanha, veterano das lutas contra os mouros e intelectual respeitado.

Seu objetivo: estabelecer a França Antártica em terras americanas, levando a um ponto critico a contestação à soberania de Portugal na região.

São discutidos os motivos que trouxeram Villegaignon a estas plagas, mas, a acreditar em testemunhos da época, seria uma soma de três fatores: a atração que aventuras e grandezas exerciam sobre o brilhante militar; o entusiasmado relato de um viajante que andara pelo Brasil e, por fim, o ressentimento contra o soberano Henrique II, que não o apoiara numa desinteligência com o governador de Brest, na Bretanha.



A verdade é que a bem-sucedida carreira militar valera-lhe o título de Cavaleiro da Ordem de Malta, mas não o tornara rico bastante para custear as despesas de uma empresa dessa envergadura. Os recursos vieram da própria Coroa.

Villegaignon convenceu o ministro Gaspard de Coligny, líder dos huguenotes (protestantes calvinistas), de que o protestantismo, ferozmente perseguido pelos católicos franceses, poderia ser livremente professado na nova colônia. E Coligny convenceu Henrique II das vantagens da expansão ultramarina francesa.

Não foi difícil a Villegaignon recrutar comerciantes, certos de que uma colonização regular e protegida pela Coroa traria grandes lucros. O mais difícil foi conseguir colonos dispostos a se fixarem numa terra estranha. e distante. Temendo perder o apoio dos católicos e, o rigor do senhor.

Tão logo chegaram à Guanabara os franceses instalaram-se na ilha de Serigipe, atualmente denominada Villegaignon. Aí foi construído o forte de Coligny, assim chamado em homenagem ao grande protetor da França Antártica – a qual, entretanto, jamais chegou a lançar raízes no continente, ficando na defensiva nas ilhas rochosas da Guanabara.

Esse fracasso resultou, em boa parte, da enorme distância entre os sonhos europeus e a realidade do pioneirismo no Novo Mundo. Em lugar do vinho, a água de poço; raízes e frutas substituíam o pão de trigo da terra natal. Some-se a isso o calor e doenças que atacaram muitos deles.

E o trabalho duro. A fortaleza e as moradias deviam ser construídas com urgência, pois era esperado e temido o ataque dos portugueses ou tribos indígenas hostis. Mal rompia o dia, eram os homens obrigados a ir britar pedras, cortar toros de madeira, carregar terra. Villegaignon, que não podia se dar ao luxo de explorar demasiado a mão-de-obra indígena, era visto com maus olhos por todos os europeus.

O descontentamento virou exasperação quando o comandante, sob ameaça de morte, obrigou um de seus subordinados a se casar com uma índia. Ao réu não foi difícil achar aliados para a fuga, num grupo que já projetava desertar e abrigar-se entre índios ou mesmo portugueses. O plano teve êxito parcial, pois quatro dos principais implicados foram capturados e severamente castigados.

Mas os católicos tinham muita força na França, e não convinha indisporse com eles. Por ordem do Cavaleiro de Malta, os protestantes foram submetidos a uma série de vexames. Em outubro, com o consentimento de Villegaig- non, trocaram a ilha por um refúgio em terra firme, La Briqueterie, onde já exis- tia um povoado de franceses que se haviam indisposto com o chefe.



Mas pouco depois resolveram voltar à França num velho navio normando que aparecera na baía de Guanabara. Menos cinco, que, atemorizados pela pouca segurança da embarcação, regressaram à França Antártica. Suspeitos de pretenderem induzir os índios à rebelião, foram submetidos por Villegaignon a rigoroso interrogatório sobre questões religiosas, ao fim do qual três deles foram supliciados e jogados ao mar.