Era Vargas – Quanto tempo Durou? Características

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Quando Washington Luís assumiu a presidência, a estrutura política da República Velha estava em frangalhos. Minado por quatro anos de tenentismo. o Exército não era mais uma entidade confiável, do ponto de vista dos interesses das oligarquias.

Estas, inclusive, já não se entendiam; mesmo em São Paulo, um setor do poderoso PRP lançara-se na oposição, fundando o Partido Democrático. Mas o pior ainda estava por vir. Em 1929, a crise da economia mundial golpeou duramente nosso principal pro- duto de exportação.

No final daquele ano, a cotação do café na Bolsa de Nova York baixava de 30 para II centavos de dólar por libra-peso. A crise política somava-se agora à falta de dinheiro. O Governo federal já não possuía autoridade ou recursos para se impor aos vários Estados da Federação. Foi em meio a esse quadro que se deram as eleições presidenciais de 1930. Estava para Começar a Era Vargas.

A Aliança Liberal

Era a vez de Minas Gerais indicar o chefe do Governo. No entanto, rompendo a política do “café com leite”. Washington Luís insistiu em apresentar o paulista Júlio Prestes como seu sucessor.

Contra ele surgiu a Aliança Liberal, lançando a candidatura do gaúcho Getúlio Vargas para a presidência e do paraibano João Pessoa para a vice-presidência.

Preteridos pelo Governo federal, os mineiros passaram a apoiar a oposição. O Partido Democrático, de São Paulo, fazia o mesmo, assim como outros grupos regionais. No entanto, a Aliança Liberal não foi um simples arranjo entre Minas Gerais, Rio Grande do Sul e Paraíba. ao qual se somaram facções oligárquicas minoritárias em seus Estados.

Setores médios urbanos e boa parte dos tenentes a ela aderiram, identificando-a como único canal viável para a solução da crise econômica e para a moralização das instituições políticas. Assim, a Aliança Liberal fez uma campanha memorável.

Milhares de pessoas compareciam a seus comícios, aclamando pela Era Vargas e João Pessoa como salvadores da pátria. Mas, a 1. de março de 1930, a máquina da fraude funcionou mais uma vez: Júlio Prestes sagrou-se vencedor com grande margem de votos.

O Governo Provisório – era Vargas

Realmente, desde o dia anterior o poder fora assumido por uma Junta Militar integrada pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo almirante Isaías de Noronha.

O presidente Washington Luís estava preso no forte de Copacabana de onde partiria para o exílio. Intitulando-se Junta Pacificadora”, o novo governo pretendia negociar com a Aliança Liberal uma solução de compromisso. A ideia era que os três militares permanecessem no poder até a realização de novas eleições.

Nos contatos subsequentes, porém. Vargas deixou claro que já se considerava o presidente da República. Paralelamente, Góis Monteiro ameaçava marchar com 30 000 homens sobre o Rio de Janeiro.

Sem condições de deter a avalanche revolucionária, a —Junta Pacificadora” entregou o poder a Getúlio Vargas, no dia 3 de novembro de 1930.

O Governo Provisório, instalado naquele dia, inaugurava uma nova página da nossa história. No Ministério e nos governos estaduais (agora sob intervenção) acomodaram-se todas as facções da Aliança Liberal: dos tenentes ao PR mineiro e ao Partido Democrático paulista: dos homens do “castilhista” Borges de Medeiros aos Libertadores gaúchos, herdeiros dos federalistas. Essa convivência entre correntes tão desiguais não poderia durar muito tempo.

A hora e a vez dos tenentes

Realmente, acabada a festa, desencadeou-se uma violenta luta política entre as facções oligárquicas da Aliança Liberal e os tenentes. Para estes, era preciso desmontar pedra por pedra a estrutura de poder da República Velha.

Isso significava, entre outras coisas, atacar as bases de apoio de muitos políticos que haviam participado da revolução. No primeiro momento, os tenentes levaram a melhor. No final de 1931, quase todos os interventores nordestinos haviam sido substituídos por militares.

Juarez Távora, veterano da Coluna Prestes, tornava-se o homem mais poderoso depois de Vargas, com autoridade sobre todos os Estados do Norte e Nordeste: em São Paulo a interventoria coube ao tenente João Alberto. enquanto Miguel Costa assumia a chefia da Força Pública.

O Partido Democrático via-se, desse modo, virtualmente afastado do poder. Os políticos civis passaram então a levantar a bandeira da Constituinte. Com essa palavra de ordem a oligarquia pretendia recuperar as rédeas do país através de eleições, onde se sabia imbatível.

Os tenentes, por sua vez, defendiam a implantação de um regime ditatorial transitório, através do qual pudessem realizar reformas profundas.

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A luta pela Constituinte

No decorrer de 1931, acirrou-se a luta interna no Governo Provisório. Tanto o Partido Democrático quanto os Libertadores gaúchos e os homens de Borges de Medeiros afastaram-se do Ministério. Setores importantes do PR mineiro também se colocaram na oposição.

E o PRP ressurgiu das cinzas, formando, com o Partido Democrático, a Frente única Paulista, em defesa da Constituinte. Em maio de 1932 Socorreram grandes greves em São Paulo, que abalaram profundamente o empresariado.

Para os donos de empresas, tornou-se urgente restabelecer a ordem a qualquer preço, o que implicava a condução ao poder de políticos “confiáveis”, alheios ao círculo tenentista. Por esse caminho, os industriais paulistas também adotaram como sua a bandeira da Constituinte.

Em julho de 1931, procurando contornar a crise, durante a Era Vargas afastara João Alberto da interventoria paulista. Sucederam-se dois outros interventores, até que, em 1932, Pedro de Toledo foi nomeado para o governo local. Era um civil paulista, da confiança do Partido Democrático.

Mas nem assim foi possível apaziguar os constitucionalistas. No final de maio de 1932, a campanha pela Constituinte já ganhara as ruas, com passeatas e comícios diários. Foi em meio a esse clima que, no dia 23 de maio, uma multidão atacou a sede da Legião Revolucionária, organização que Miguel Costa criara em São Paulo.

Os manifestantes foram recebidos a bala, e entre as dezenas de feridos espalhados pela praça da República estavam quatro mortos, os jovens Mário Martins de Almeida, Antônio Américo de Camargo Andrade, Euclides Miragaia e Dráusio Marcondes de Souza.

As iniciais dos nomes Martins, Miragaia, Dráusio e Camargo comporiam a sigla MMDC, identificadora de uma organização formada a partir das jornadas de maio e que teria importante papel na Revolução de 1932. Nesse momento já se conspirava abertamente para derrubar a Era Vargas.

Em São Paulo, ao lado de políticos civis como Paulo Duarte e Júlio de Mesquita Filho (dono do jornal O Estado de S. Paulo), alinhavam-se o general Isidoro Dias Lopes e outros militares.

No Rio de Janeiro, o coronel Euclides Figueiredo era o contato mais importante, enquanto o general Bertoldo Klinger se comprometia a sublevar as tropas acantonadas em Mato Grosso. No Rio Grande do Sul, o próprio Flores da Cunha, interventor do Estado, garantia que os gaúchos apoiariam a rebelião.

A Constituição de 1934

Embora vitorioso, a era Vargas manteve a palavra empenhada antes do conflito e convocou eleições para a Assembléia Constituinte. Eleitos a 3 de maio de 1933, os deputados começariam seus trabalhos a 15 de novembro daquele ano.

A 16 de julho de 1934, era promulgada a segunda Constituição republicana. Na eleição da Constituinte, as mulheres haviam votado pela primeira vez no Brasil, em pleito nacional. Entre os 254 deputados estava a paulista Carlota Pereira de Queirós, primeira mulher a ter assento na Câmara Federal.

Mas, além de redigir e promulgar a nova Constituição brasileira, os deputados também mantiveram Getúlio Vargas no cargo, elegendo-o presidente constitucional. Seu mandato terminaria em 1938.

Comunistas e integralistas

Os anos de governo constitucional foram os mais agitados da era Vargas, refletindo, aliás, a situação conturbada em que o mundo se encontrava. Era a época da ascensão do nazismo e do fascismo, por um lado, e do crescimento dos partidos comunistas por outro.

No Brasil configurava-se um quadro se- melhante. Nossos fascistas estavam reunidos na Ação Integralista Brasileira, de Plínio Salgado, que chegou a arrebanhar 300 000 filiados em todo o país. Mas o Partido Comunista do Brasil também havia crescido muito, particularmente após a adesão de Luís Carlos Prestes, através do qual os comunistas conseguiram recrutar vários militares.

Comunistas e integralistas eram inimigos irreconciliáveis que, não raro, se enfrentavam nas ruas em choques sangrentos. O integralismo, porém, contava com simpatizantes nos altos escalões do Governo: era o caso de Filinto Mtiller, o chefe de polícia do Rio.

O próprio Vargas, aliás, embora não tivesse ligações pessoais com os homens de Plínio Salgado, já mostrava forte tendência a copiar os regimes autoritários da Europa. Para combater o endurecimento do Governo e o integralismo, o PCB aproximava-se de grupos liberais, com os quais, em janeiro de 1935, formou a Aliança Nacional Libertadora.

Em pouco tempo a ANL converteu-se numa força política de âmbito nacional, chegando a recrutar 50 000 militantes só no Rio de Janeiro. Em julho de 1935, esse crescimento seria interrompido por um decreto do Governo, colocando-a na ilegalidade.

A partir de então, o PCB passou a predo- minar dentro da ANL, pois era a única corrente com estrutura para manter uma vida clandestina. Cada vez mais, aquele amplo movimento de frente única perdia a perspectiva da luta política de massas para se converter em núcleo de conspiradores. onde a palavra final era dada por Prestes e outros quadros oriundos do tenentismo.

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As insurreições de 1935

A partir de julho, a palavra de ordem da ANIL passou a ser a derrubada do Governo a qualquer preço. Preparava-se um golpe, a ser conduzido pelos militares filiados à organização – uma escassa mi noria dentro do setor progressista das Forças Armadas. A primeira insurreição ocorreu em Natal, no Rio Grande do Norte.

A 23 de novembro de 1935. um grupo de militares pertencentes ao 21. Batalhão de Caçadores, sob a chefia dos sargentos Eliziel Diniz 1-lenriques e Quintino Clementino de Barros, derrubou a administração local e se apossou da cidade.

A seguir, instaurou uma Junta Governativa composta pelo sargento Quintino, os funcionários públicos Lauro Cortez Lago e José Macedo, o estudante João Galvão e o sapateiro José Praxedes de Andrade.

Mas o governo revolucionário do Rio Grande do Norte durou apenas oitenta horas. No dia 27. tropas fiéis a era Vargas retomavam o controle da situação.

Enquanto isso, na madrugada do dia 24. amotinava-se o 29. Batalhão de Caçadores, aquartelado nos arredores do Recife. Cerca de quatrocentos homens, sob o comando do capitão Otacílio Alves de Lima, marcharam sobre o Recife, enquanto nesta cidade e em Olinda outros militantes da ANL atacavam prédios públicos.

O tiroteio nas duas cidades durou até a noite do dia 25. quando as tropas legais receberam reforços e conseguiram sufocar a rebelião. Na madrugada do dia 27, nova insurreição explodia, desta vez no Rio de Janeiro. Cumprindo ordens de Prestes, o tenente Agildo Barata amotinou o 3. RI na Praia Vermelha, e preparou-se para marchar sobre o Palácio do Governo.

No entanto, falharam as rebeliões que deveriam eclodir simultaneamente em outras unidades militares, e Agildo Barata acabou isolado dentro do quartel, cercado pelas tropas do general Eurico Gaspar Dutra. Ainda assim, os rebeldes ameaçaram resistir e Dutra ordenou que a artilharia abrisse fogo.

As 13h 25min. do dia 28 os homens de Agildo Barata rendiam-se. abandonando o quartel, que, àquela altura, já estava parcialmente em ruínas. O saldo da aventura comunista era de cinquenta mortos, entre os quais inúmeros jovens recrutas.

As insurreições de novembro forneceram o pretexto necessário para o endurecimento do regime. O Brasil ficou sob estado de sítio até 1937: milhares de pessoas foram presas: fecharam-se inúmeros sindicatos e muitas organizações políticas foram vasculhadas pela polícia.

O movimento operário foi seriamente golpeado: qualquer tentativa de organização de greves ou manifestações caiu no vazio, ante a dura repressão policial. O país caminhava rapidamente para o golpe do Estado novo.

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Imagem- maiscuriosidade.com.br    bastosmaia.com.br      lingua-bocaberta.blogspot.com.br

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