Quem foi Dom João VI – Quem foi

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Dez anos após o esmagamento da Conjuração Baiana, a ruptura com Portugal foi temporariamente adiada: chegou ao Brasil a família real portuguesa, em fuga diante do avanço dos exércitos franceses na península Ibérica. Quando Dom João VI voltou a Portugal, o Brasil era um país pronto para a independência. Faltava unicamente proclamá-la.

O dilema português

Nesse período, Portugal era apenas uma sombra da grande potência que havia sido no século XVI. País fraco, econômica e militarmente, tinha na Inglaterra seu maior parceiro comercial.

Vendia vinho e azeite e produtos do Brasil para as ilhas britânicas e, em troca, comprava tecidos e toda sorte de mercadorias fornecidas pelas manufaturas inglesas.

Dom João VI era regente desde 1792, quando se constatou a loucura de sua mãe, Dona Maria 1, e conseguira se equilibrar na deli

cada situação européia declarando a neutralidade de Portugal ante França e Inglaterra, os dois colossos em luta. Enquanto isso, o comércio com a Inglaterra prosseguia normalmente. Mas, com o bloqueio continental, tornou-se necessário tomar uma decisão.

Esse dilema durou mais de um ano. Nesse meio tempo, porém, uma outra ideia foi amadurecendo. Nem guerra, nem submissão aos propósitos franceses: a Corte iria para o Brasil, deixando Portugal à sua própria sorte.

Chegada de Dom João VI no Brasil

Em 1807, Portugal assinava uma convenção secreta com a Inglaterra, estabelecendo as condições em que se daria a transferência para o Brasil. Os ingleses comprometiam-se a escoltar a Corte portuguesa através do Atlântico e, em troca, poderiam ocupar a ilha da Madeira.

Além disso, Portugal garantia que não deixaria seus navios mercantes e de guerra caírem em mãos dos franceses. Depois de tudo acertado, Dom João VI ainda tentou ganhar tempo, simulando aceitar as exigências francesas.

Mas, na prática, mantinha relações comerciais com a Inglaterra e servia como base para o contrabando de mercadorias britânicas para os demais países europeus.

No final de 1807, Napoleão ordenou que o general Jean Andoche Junot invadisse Portugal. Para a família real e os cortesões chegara o momento da fuga. Na manhã de 29 de novembro de 1807, Lisboa transformou-se num pandemônio.

A notícia de que as tropas de Junot aproximavam-se da capital soara como um toque de retirada para a Corte portuguesa; milhares de nobres, funcionários do alto escalão, padres e criados concentravam-se no cais, tentando embarcar nos 36 navios à disposição da Coroa.

Pelas ruas de Lisboa, as mulheres do povo choravam. Outros tentavam impedir à força aquela debandada geral. Junto ao porto, uma turba furiosa vaiava os fugitivos. Dom João VI embarcou disfarçado, temendo mais seu próprio povo do que as tropas de Napoleão.

A esquadra levantou âncora completa- mente lotada. Além de 15 000 pessoas, levava tudo o que pudesse ter algum valor: jóias, quadros, móveis, roupas, prataria. Metade do dinheiro circulante em Portugal foi trazido para o Brasil.

 

A abertura dos portos

Ainda na Bahia, a 28 de janeiro de 1808, Dom João VI assinou carta régia abrindo os portos do Brasil “às nações amigas de Portugal” – naquele momento, apenas a Inglaterra, senhora dos mares.

As mercadorias transportadas em navios de qualquer país que estivesse em paz com a Coroa portuguesa teriam livre acesso ao mercado brasileiro, mediante o pagamento de 24% sobre seu valor. Ao mesmo tempo, ficavam liberadas as exportações da Colônia, com exceção do pau-brasil e alguns outros artigos que continuariam como monopólio da Coroa.

Para o advogado José da Silva Lisboa (mais tarde visconde de Cairu) e outros defensores da abertura dos portos, esta representava quase uma antecipação da independência.

Descobrindo outra vez o Brasil Mas não foram apenas negociantes que vieram ao Brasil. Nos treze anos em que Dom João VI aqui permaneceu, o país se abriu para o mundo. A curiosidade dos europeus em relação ao nosso território era enorme, o que levou vários naturalistas a percorrerem o interior Brasileiro.

As anotações o os desenhos que esses pesquisadores deixaram são uma espécie de segundo relato do descobrimento do Brasil. Entre esses naturalistas cabe destacar o Barão Heinrich von Langsdorff, cônsul geral da Rússia no Brasil, a partir de 1813. Sua casa, no Rio de Janeiro, transformou-se num verdadeiro museu de história natural, onde se reuniam os cientistas de passagem pela cidade.

Em 1815, chegou o príncipe alemão Maximilian von Wied Neuwied, que explorou o sertão da Bahia. Em seu livro Viagem ao Brasil nos Anos de 1815 e 1817, reúne dados importantes sobre a fauna, a flora e os índios brasileiros. Os franceses só começaram a chegar depois de 1816, quando já haviam terminado as guerras napoleônicas.

O mais importante deles foi o naturalista Auguste de Saint-Hilaire, que permaneceu no Brasil até 1822, tendo percorrido 15 000 quilômetros do nosso território. Saint-I-Iilaire deixou preciosas anotações sobre a população do país (luso-brasileira e indígena), além de informações geográficas, econômicas e outras relativas à zoologia e à botânica. Outro viajante foi o alemão Johann Moritz Rugendas, que aqui chegou em 1821.

Em seu livro Viagem Pitoresca Através do Brasil, registrou, com gravuras e textos, suas impressões sobre a sociedade brasileira.

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As realizações de Dom João VI

O regente não se limitou a incentivar os naturalistas estrangeiros. Sob seu governo, o Brasil abandonou os acanhados padrões coloniais, modernizando-se a passos largos. Em 1808, foi instalada no Rio de Janeiro a Imprensa Régia; chegava ao fim a proibição do funcionamento da tipografia no Brasil.

Suas oficinas foram responsáveis pelo aparecimento naquele mesmo ano do primeiro jornal da Colônia. a Gazeta do Rio de Janeiro, Ali tam- bém se imprimiam livros escolares, por- tarias, editais e outras publicações, sempre vigiadas pelos funcionários da Coroa.

Nos anos seguintes, as tipografias espalhavam-se pelo país fazendo com que, aos poucos, o livro deixasse de ser artigo de contrabando – mas o Correio Brasiliense, de Hipólito José da Costa, jornal de oposição e de análise lúcida quanto aos rumos do Brasil joanino, continuou- a ser impresso em Londres e enviado clandestinamente para seus leitores.

A música, uma das paixões de Dom João, foi bastante incentivada. Atraídos pela efervescência cultural do Rio de Janeiro, numerosos artistas chegaram da Europa, introduzindo no país o gosto pela ópera e pelo balé.

No campo da música sacra, o regente descobriu o padre José Maurício Nunes Garcia, notável compositor mulato que, durante algum tempo, dirigiu os músicos da Capela Real. Outras realizações de Dom João VI foram a Escola Superior de Matemática, Ciências, Física e Engenharia; a Escola Médico Cirúrgica; o Jardim Botânico e o Real Hospital Militar, todos criados em 1808.

Em 1810, surgiu a Real Biblioteca, montada a partir dos milhares de livros da Biblioteca da Ajuda, trazidos em 1807 nos porões dos navios. Um dos empreendimentos culturais mais importantes do período joanino foi a criação da Escola Real de Ciências, Artes e Ofícios, em agosto de 1816.

Seu corpo docente seria formado pelos integrantes da Missão Artística Francesa, que chegara ao Rio de Janeiro naquele ano.

Eram cerca de quarenta pessoas, entre as quais havia artistas, como o arquiteto Auguste Henri Victor Grandjean de Montigny, o desenhista Jean Baptiste Debret, o pintor Nicolas Antoine Taunay, além de artesãos e operários.

A escola só foi inaugurada em 1826, sob a denominação de Imperial Academia e Escola de Belas-Artes, quando muitos integrantes da Missão Artística já haviam retornado a seu pais Jean Baptiste Debret foi um dos que permaneceram no Brasil.

Enquanto esperava a concretização do projeto, viajou pelo país desenhando e anotando impressões do que via. Mais tarde, reuniu todo esse material no livro Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil, documento importantíssimo da história brasileira.

Além de modernizar o Brasil, Dom João VI procurou ampliar a influência portuguesa na América do Sul. Em 1810 mandou invadir a Guiana Francesa com o auxílio de tropas inglesas, em represália ao ataque de Napoleão a Portugal.

Foi dentro desse quadro que surgiu a ideia de elevar o Brasil à categoria de Reino Unido a Portugal e Algarves, concretiza’da em dezembro de 1815. Dom João, com essa medida, melhorava suas posições no congresso legitimista de Viena, onde não seria visto somente como rei do pequeno Portugal, mas também do imenso “reino” brasileiro.

Além disso, o regente antecipava-se a futuras manobras inglesas. Se já não éramos mais colônia, para que pensar em independência? A manobra, porém, criou problemas com a opinião pública da antiga metrópole: era como se Portugal tivesse sido rebaixado a colônia.

A partir daquele momento, os negociantes portugueses redobraram sua luta para recuperar os antigos privilégios, o que levou as relações luso-brasileiras a um ponto de ruptura.

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